O Tapete

carpet

Buscava entender as palavras do autor, procurava nas entrelinhas o significado daquelas frases dispersas, tentava conter o sorriso ao lembrar.
Voltou à sala onde suas pernas tremiam de prazer enquanto as mãos ganhavam vida própria…
O autor tomado de energia libertina, cantarolava poesias e tornava mais complicado seu entendimento.
Ela pousava sobre seu peito movimentando-se, tornando incapaz que se mexesse, deixando imóvel, ali, em êxtase.
Cada ponto parecia mais demorado que o outro, o parágrafo se estendia como um destino de viagem que não chega nunca.
Ouvia a respiração ofegante, cabelos caindo sobre os olhos que penetravam tão profundamente.
Fechou o livro. A amava. Deixou o autor descansar.
Desejava profundamente seu corpo a todo momento. A capa não lhe dizia muita coisa..
Observou o além suspirando.
Voltou a encarar o autor, mas seus pensamentos continuavam no tapete da sala.

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Insólito

E se o mundo parasse? E se a Terra morresse? E se a vida acabasse?
Se as flores pararem de respirar? Se as crianças não precisarem mais do leite
materno? Se a Lua não for mais o ponto de encontro dos românticos?
Se o cão não for mais meu melhor amigo? E da água não puder mais beber? Se as
luzes da cidade se apagarem.. como irei me guiar?
Para que relógio? Para que celular? Televisão, computador.. não são
necessários, contudo, e se o galo parar de cantar? E o ser humano perder a fala
e as máquinas forem destruídas?
Acordo na cama, no sofá da sala, no tapete do banheiro.. coloco os pés no chão
e o frio é de arrepiar. E se perder a sensibilidade?
Se eu arrumar minha bagunça? E a tua? E esquecer da minha? Meu mundo é
bagunçado, meus pensamentos, e este texto que não vou arrumar.
Vou me aquecer. E se o fogo não queimar? Vamos conzinhar! Fritar ovos, bacon,
peixe, cozinhar batatas, congelar o suco, bater as frutas no liquidificador. E
se a energia se esvair?
Quantos de nós escondemos problemas? Quantos enfrentam os mesmos? Quantos
deixaram de acreditar em Deus?
Trabalho, trabalho, trabalho, dinheiro!
E se a chuva deixar de ser pura? E o verde tornar-se marrom? Canto alegremente,
mas e se a música calar? Meus ouvidos.. de que servirão? E as notas? E as ondas
sonoras?
Não roubo ideias, roubo conhecimento, leio até que me canse as vistas, filtro o
máximo da cultura, ponto pra mim! E se o preconceito tivesse fim?
E se a roda não girar e a escola for mais divertida? E se o câncer tiver cura?
Caminho na areia molhada e me sinto flutuar. E se descobrir que posso voar?
Quero festejar, mas acabaram-se meus motivos! E os teus? E se “festa” perder o
sentido? E se todos tivessem todos sentidos? Visão, audição, olfato, tato, …
E se problemas não me impedissem de seguir adiante?
Estou aqui! Podes me ver? Podes me ouvir? Tocar? Conversar? Podes sentir meu
coração desesperado?
E se a vida acabar e eu partir? Sentirás falta das minhas palavras?
Me despeço com a marca do sorriso meu.

Um Gênio Solitário

Um gênio sem pensamentos superiores deixa de ser um, torna-se só mais um em meio a sociedade, um pobre coitado sem nada diferente a oferecer.
O escritor sentado, olhar vago buscando inspiração. O álcool lhe tira o sono, não sabe exatamente o que fazer, busca palavras que indiquem seu desânimo e mais desanimado fica por não encontrá-las.
Deslocado, parado em um de seus lugares favoritos, tenta lembra-se daquilo que já foi tema de suas histórias, mas tudo já foi dito, não há mais o que escrever.
O frio parece congelar suas ideias, onde estão os raios de sol que aqui costumavam descansar?
Mais um gole, outra tragada e ainda a mesma incompatibilidade entre o papel e a caneta, deveras, perdeu a principal fonte de seus textos atuais.
Triste, olha para os pés e a recordação de uma dança lhe vem, submete-se ao passado, quase presente, precisa mais. Acende outro cigarro, torna-se pomposo em sua pose solitária, quase irritado consigo mesmo.
Onde estaria agora se não tivesse esse dom? Talvez afundado em incógnitas, visualizando um futuro que jamais chegaria, enlouquecido pela falta de expressão. Esta é sua realidade agora, um gênio sem gênio algum, como tantos, a maioria, apenas um ser comum.
A música o acompanha, confundindo seus pesares, pequenos trechos que jamais saberia de onde vieram. Queria tê-los escrito.
Acabaram seus cigarros, também o álcool e a vontade de escrever. “Chega de histórias elaboradas” – pensou. Foi buscar de volta sua inspiração.